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PROSA MUSICAL - JOÃO PAULO MANCHA

  • 4 de ago. de 2020
  • 11 min de leitura

Atualizado: 7 de ago. de 2020

Prosa Musical, a série de entrevistas para o site Escola de Rock DF começa com o músico, produtor e ativista social e cultural João Paulo, mais conhecido pelo pseudônimo de Mancha. Para embalar a leitura, sugiro que busquem por músicas das suas bandas Mofo, Peso Morto e Arandu Arakuaa. 01) Amigo Mancha, seja bem-vindo ao site da Escola de Rock DF. Aproveitando que a palavra “escola” foi mencionada, como você avaliaria a importância da educação e por quais razões recorrentes governos tendem a menosprezá-la?


Mancha: Salve galera!!! Valeu demais pelo espaço aqui no Site da Escola do Rock DF!!! Sempre você agitando também né CDC! Vamos então! A educação é em sua base uma forma de nutrir o desenvolvimento humano, nas mais diversas vertentes, filosóficas, artísticas, culturais, espirituais, científicas, etc. e acredito que a arte é um dos maiores instrumentos de transformação humana, pois ela nos toca, nos sensibiliza, nos entretem, nos diverte, nos provoca reflexões... Enfim, nos faz buscar novos caminhos e nos inspira a produzir resultados. Contudo, por décadas vemos o falso e demagógico discurso de "priorizar a educação" ser proferido, mas sem efetivação prática na valoração salarial e respeito humano aos professores (grandes heróis deste país!), bem como na estrutura de diversas escolas públicas, e na própria base curricular, que ainda insiste em trabalhar o conhecimento e não verdadeiramente desenvolver o saber humano a partir de valores e exemplos mais humanos. Conhecimento sem atitude infelizmente não é nada transformador e uma sociedade pouco educada está fadada cada vez mais a alienação, inércia social e a um pensamento crítico limitado. Daí acredito ser o principal motivo prático pelo qual recorrentes governos nos perpetuam (ou tentam) a uma decadência social contínua, enquanto o corporativismo selvagem favorece aos grupos de poder e arruína a dignidade humana de milhões de brasileiros.

02) Você é paraense, terra que tem uma cultura riquíssima e, consecutivamente, de excelentes bandas (e não me refiro aqui à Calipso e coisas do gênero!). Você está morando no DF há mais de uma década e, sendo assim, acredito que já esteja bem brasiliense. Culturalmente e gastronomicamente falando, do que você mais sente falta de Belém, a sua cidade natal?


Mancha: Sinto falta da simplicidade das pessoas, do certo sentimento de corpo... de comunidade... de um #tamojunto de um povo que habita um dos Estados mais ricos do Brasil em relação a natureza, minérios, culinária, cultura, mas até hoje é um dos Estados mais explorados, onde pagamos muito caro por aqui que é extraído de "nossa própria" terra. Temos uma cultura de fazer mais com menos, fazer na raça e escrever nosso nome rs... aprecio a Joelma do Calipso , fazer o q ela faz no palco com 2 horas de show dançando tudo coreografado e cantando sem perder o pique é pra poucos. É a pitada do nosso brega e variações do estilo. Aprecio o estilo da Guitarrada feito por vários artistas, que tem a sua influência do nosso Carimbó, bem como os batuques de domingo na praça da República ou mesmo o Arrastão do Pavulagem onde democraticamente o povo se junta e toca tambores nas ruas de Belém. Ainda mesmo o próprio Círio de Nazaré , o 2o Natal de Belem, onde temos um dos maiores exemplos de tolerância e respeito entre movimentos religiosos e LGBT que serve de lição para muitas pessoas que adoram falar em tolerância (e digo isso pros 2 lados), mas não consegue vivenciá-la na prática, pois neste caso, temos eventos de teor cênico quase que totalmente conduzidos por pessoas trans, gays, lésbicas, sobre temáticas religiosas e há um respeito mútuo, apesar de historicamente sabermos que há algumas divergências ideológicas entre esses grupos. O que vale é o respeito e a união nesse grande evento festivo e religioso na minha terra. Mas o principal de tudo mesmo é a minha família, minha raiz, meu legado reverso e a essência de minha existência. Amo muito eles e busco honrar nossa história e a vida que geraram e me deram. Amo vocês! ;)  


03) Há quanto tempo você está tocando com a Mofo e como se deu a sua entrada na banda?


Mancha: Entrei em Maio de 2017, ao melhor estilo MOFO, tipo pegadinha do Malandro.. rs.. perguntando numa terça-feira se eu poderia segurar um show na quinta-feira a noite, com 4 músicas simples! Passei a noite escutando as músicas e tentando memoriza-las. Na quarta-feira ensaiamos rapidão e quinta rolou o show no grande Zepelim Bar no Guará-DF! Toquei num kit compacto de bateria (o tamanho dos tambores lembra uma bateria meio "infantil", mas não subestimem... aquele kit fazia um som maravilhoso!) e errei um trecho de uma música, mas foi de boa! A energia dos manos no palco me contagiou! Mexeu com minha essência e nunca mais quis parar de tocar com eles! kkkk 04) Ainda sobre a Mofo, queria que contasse aos leitores um pouco sobre os vídeos e também sobre o novo CD, o excelente “Sick and insane”.


Mancha: Foi uma experiência incrível gravar este disco! era como um sonho estar realizando esse trabalho numa banda que admiro e respeito muito como o MOFO, por toda a proposta musical, temática, desafio técnico e energia insana! Fiz a gravação das baterias num fim de semana difícil pra mim porque já vinha virado de uma noite de show no Ritual Metal do Roger (Estado Revoltoso) e fica a dica, não façam isso! rs... O estilo requer disposição, precisão e preparo, então descansar e se alimentar bem é obrigatório! Mesmo assim entendo que com a grande produção do Victor XXL e Texas Estúdio, o álbum ficou com a sonoridade que buscávamos, tudo sendo bem audível e com 10 sons insanos e bem elogiados em diversos portais especializados!!! Eu produzo alguns vídeos e fiz um lyric video simples para o single Final Experiment e recentemente fiz o clipe (ao estilo de gravação em takes isolados por causa da pandemia) de Hate and Disgrace, que em breve estaremos lançando! ;) Por fim, temos alguns vídeos da MOFICES (Babaquices do MOFO) durante a campanha de financiamento coletivo no Catarse e agora estamos com uma linha de DICAS MOFÉTICAS (indicações culturais do MOFO), que vai de bandas, filmas a livros! Tudo em nossas redes sociais! MOFE ou MORRA!  


05) Fale também sobre os materiais que você gravou com a Arandu Arakuaa e se, sonoramente e liricamente, você consegue traçar referências nortistas na música da banda?


Mancha: Bem, dos meus materiais gravados, tem album Mrã-Waze de 2018 (Respeito a Natureza em Xerente) e os singles Waptokwha Zahré (Grande Espírito no idioma Akwẽ Xerente) e Kaburéuasu (Coruja em Tupi) de 2020. Tenho colocado cada vez mais minha identidade na banda e realmente nos 2 álbuns coloquei alguns batuques com um swing bom pra dançar (povo nortista adora uma dança rs...), também pela minha vertente capoeirista, onde aplico atabaques, pandeiros e berimbau. Na Kaburéuasu em especial apliquei na bateria a levada de carimbó (neste caso, como não era uma pegada de carimbó tradicional pau e corda, fiz a levada na batera como normalmente se toca ao usar um kit de bateria). As letras resgatam tradições, lendas e rituais indígenas das mais diversas comunidades ao longo do Brasil, bem como enaltecem o nosso contato com a natureza e o quanto estamos conectados a ela, ao melhor espírito indígena de coexistir com a natureza sabendo respeitá-la. Não dando spoiler mas um dos próximos singles terá como capa uma arté arte dos Karájas, também residentes no Pará e a nossa nova foto promocional, já disponível nas plataformas digitais, também tem um cocar Karajá. ;)


06) A Peso Morto planeja gravar algo novo, visto que vocês gravaram um EP em 2016?


Mancha: A banda teve pequenas mudanças nesses períodos e algumas dificuldades de priorização de novos trabalhos, então temos trabalhado na linha de singles. Devemos lançar um novo single agora neste 2o semestre e até o fim do ano, um full álbum com os singles anteriores mais 2 novos sons "Guerra Santa" e "Diabolous". Muita pancada e letras em português para rapidinho a galera já sacar a ideia! 07) Entre tantas bandas e tantos afazeres, por quais razões resolveu sair da banda Doi-Codi?


Mancha: Essa vida "múltipla" que levo há alguns anos me pressiona por produzir mais e mais resultados, mas chega uma hora que precisamos ser realistas e focar em algumas linhas para fazer a coisa fluir melhor. Como os ritmos de trabalho nas outras bandas em que já estava como o Peso Morto, Mofo e Arandu Arakuaa estavam mais acelerados e estruturados, infelizmente tive que optar por sair da DOI-CODI e priorizar essas outras frentes , fora a parte de produção que já estava fazendo. A proposta da DOI-CODI é simplesmente sensacional, de não deixar cair no esquecimento uma série de tragédias ocorridas no período da Ditadura Militar, além de outras críticas sociais, e amo tocar as músicas por me exigirem bastante também da bateria! Quem sabe num futuro a banda retome também as atividades... quem sabe.    08) Fale um pouco no que consiste a existência da Convergência Social. Tem mais gente envolvida ou é a política do eu sozinho?


Mancha: De certa forma ainda é a política do eu sozinho... mas graças a Deus sempre tive o apoio e carinho de alguns parceiros, amigos, desconhecidos, voluntários, etc. Gratidão é base e sou grato a cada um que me apóia nessa jornada. O Convergência Social vem de uma inquietude ainda aos 12 anos com a decadência humana e as tragédias sociais de rotina. Sempre fui um cara sensível e chorava das mazelas do mundo e até hoje choro fácil com situações que me revelam ou uma profunda tristeza alheia ou gestos lindos voltados ao afeto humano. Mesmo à minha medida e humilde presença no mundo, o Convergência Social tem como propósito fomentar a união , a evolução interior, o despertar de nosso poder humano e social para fazer esse mundo melhorar, por atitudes evolutivas e pautadas por valores como legado, respeito, amor, produtividade, igualdade, eficiência e equilíbrio humano. A arte é um desses pilares que apoiam nessa transformação e por isso o projeto já apoiou diversos eixos como eventos de Teatro, Musicais, Capoeira, Fitness, Assistencialistas, etc. Nesse sentido, nossa idéia é criar uma rede cada vez maior de pessoas conectadas com este propósito e juntos fazermos reverberar mais uma força contrária a decadência social em que nos encontramos. Devemos honrar nossa espécie, nossa história, existência e essência, e se ela não sofre um "upgrade automático", somos nós que vamos arregaçar essa manga e fazermos essa espécie produzir resultados melhores.


09) Você promove eventos desde setembro de 2017. O que te levou a essa vida de produtor e quais as diferenças que as suas produções (Mancha Hell Fest, Sunset Metal, BSB Rockers, Convergência Underground e United Underground) guardam entre si?


Mancha: Sempre quis que houvesse mais espaço para o underground no geral, pois mesmo no meio da cultura em geral, sempre senti uma certa marginalização... como se o underground de fato fosse a margem da margem de tudo e assim tem heroicamente resistido por anos! Diante das dificuldades, o ímpeto pela ação me fez decidir por eu mesmo buscar estudar e entender o meio da produção e passar a praticá-lo, oportunizando às bandas e a cena se fortalecer de alguma forma! :)

O Mancha Hell Fest foi meu primeiro evento no Ragnarock , a quem agradeço na pessoa do Wesley por ter me cedido a cada sem eu ter experiência alguma com esse tipo de evento, mas deu bom... só o que não deu bom é que meu braço travou no 3o show que fiz da noite, uma vez que o evento teve a Beholders Cult de abertura mas as 3 outras bandas da noite eram todas onde tocaria bateria kkk (Peso Morto, Mofo e DOI-CODI). O BSB Rockers e o Metal da Independência foram eventos em datas comemorativas na história do Brasil e Brasília. O Sunset Metal Fest é uma abordagem de fazer um evento matinê para quem tem dificuldade de sair mais tarde a noite, poder participar também, além de apresentar novas bandas ao público. O Convergência Underground Fest visa mais a diversidade de estilos. O United Underground é um evento com bandas mais extremas mesmo, voltado para o ingresso fácil ao evento, com apenas 1kg de alimento. O que há de comum em todos eles é o ingresso social, onde sempre baixamos o preço mediante doação de brinquedo, roupa, alimento, para distribuição em diversas comunidades carentes ou instituições de teor social (FALE - Fundo Assistencial Lucas Evangelista , sendo uma comunidade de soro positivo HIV, Pestalozzi - para PNE, moradores de rua em geral, Asilos como a Sociedade Vicente de Paula, Centros Espíritas ou Casas de Assistência Infantil, como Casa de Ismael, etc.)  




10) Entre ser produtor e músico, qual carreira optaria em seguir se tivesse que escolher apenas uma?


Mancha: Aí você realmente me quebra as pernas! Cada linha dessa, apesar de estarem interligadas obviamente, me proporcionam experiência incríveis ao seu modo. Como produtor me realizo ao contribuir de alguma forma para apresentar artistas e bandas, colaborar com a produção artística e legado cultural e movimentar de alguma forma a cadeia produtiva cultural e mais underground, mesmo que sejam movimentos pequenos, à minha medida. Como músico me sinto realizado pela energia que vibra em mim ao transmitir arte diretamente de minha essência e meu ser e fazer isso tudo com muita sinergia com todos os meus amigos de banda. Entendo que produzir música e mais ainda, tocar num palco, é um ato cênico, de interpretação e reverberação musical! Meio viagem mas é por aí mesmo! É deixar nossa essência naquele espaço e nosso rastro no mundo... é criar um legado positivo em conjunto com a banda , com o público, produtores, etc. É um selo cultural eternizado ali! Mas voltando a pergunta (rs...), hoje ainda peso mais pro músico e talvez a longo prazo, pese para carreira de produtor. 11) Enquanto ativista cultural, quando você acha que os shows poderão voltar a acontecer e como será esse cenário pós apocalipse covid?


Mancha: Após tantas tragédias sociais, econômicas e vidas infelizmente perdidas pela pandemia COVID-19, eu imagino que a prudência pela saúde e o resguardo da atividade econômica da cadeia produtiva cultural devem achar um meio-termo e equilíbrio. Um "tuning" contínuo pra sintonizar a estação adequada pro momento em que vivemos. Acredito que a partir de Outubro, talvez alcancemos um pouco da chamada "imunidade de rebanho", apesar das controvérsias deste conceito, mas digo no sentido de termos uma curva maior de imunizados (mesmo que temporariamente até que uma vacina efetivamente chegue nas mãos da população), de locais e pessoas melhor terem assimilado os protocolos de distanciamento ou mesmo de algumas localidades já terem passado até por uma 2a onda de contágio. Creio que esse infeliz fenômeno alcance uma melhor maturidade na mente de produtores e público por volta de Outubro em relação ao modus-operandi e assim se adaptem mais a um "novo normal", com eventos bem controlados e moderados na circulação e distanciamento de pessoas. Creio que isso se estenderá por uns 2 a 3 anos pelo menos, até uma vacina "milagrosa" estar melhor disseminada no mundo. 

12) 3 bandas do underground paraense que você recomendaria aos leitores.


Mancha: Putz... tem tantas... mas apenas 3... então lá vai: Disgrace and Terror, Bad Trip e Warpath ... realmente são bandas bastante diferenciadas, com muito Thrash Metal e Hardcore pancada!! Tenho orgulho desses conterrâneos fazerem a diferença e mostrar o PODER DO NORTE (gíria local rs...). 13) Finalizar com 13 perguntas para deixar o Bolsonaro cheio de raiva. Obrigado pelo seu tempo e finalize com um recado aos navegantes do site Escola de Rock DF!


Mancha: Obrigado por este espaço a você, CDC e a todo o corpo da Escola de Rock DF! Valorizemos mais os agentes de cultura nas suas diversas vertentes! Parabéns a Escola do Rock DF por resistir em meio a uma pandemia e perpetuar a promoção e nutrição da arte e música em cada ser humano! Que tenhamos mais amor e real empatia pelo corre de cada um... que gastemos mais energia entendendo a história do mundo, do outro e de si mesmo do que acusando e julgando os outros... que tenhamos mais vergonha na cara de , mesmo sendo errantes, dar mais exemplo do que cobrar dos outros. ATITUDE que EVOLUI é o que precisamos e desejo q tenha provocado humildemente cada leitor a pensar de forma mais positiva e colaborativa e juntos tentar fazer esse mundo melhorar!! #tamojunto e um abraço a todos! Fiquem em paz! Valeu!


Entrevista feita por Fellipe CDC.
 
 
 

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