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DAVI KAUS | ARTISTA INCANSÁVEL

  • 24 de ago. de 2020
  • 10 min de leitura

Davi Kaus é da espécime Artista infatigável, oriundo da família dos artistas que não desistem nunca e que nasce e prolifera na região administrativa de Taguatinga. Davi é um cidadão devoto à arte, de corpo e alma, ferrenho ativista cultural e, felizmente, está do lado do nosso bom e velho rock´n´roll! Vamos à prosa...

Fellipe CDC:

01) Muito honrado com a sua presença na coluna Prosa Musical. Seja bem-vindo ao site Escola de Rock. Apesar de você ser geminiano, preciso que você defina o artista Davi Kaus em poucas palavras.

Davi Kaus:

Fellipe, é uma honra pra mim também. Cara, sou filho de Dona Alice e Seu Edigar (em memória), músico e poeta de Arniqueira/Taguá, um doido que acredita na Arte.

Fellipe CDC:

02) O que o leitor pode esperar do livro “Davidusakikaus”? Encontraremos nele pegadas do seu lado musical? Como foram a concepção e a escolha dos textos que compuseram este lançamento? Já tem outras viagens literárias programadas para um futuro breve?

Davi Kaus:

O leitor pode esperar poemas apaixonados, sobre sexo, Amor, cidade...

Poesia sanguínea. É um livro pesado mas amoroso. Tem um poema em homenagem ao The Jesus and Mary Chain (banda de noise-rock escocesa), tem uma pro Gilberto Gil, tem uma pro Syd Barret. Tem uma que se chama “Punk”. É um livro muito influenciado pela cultura Dark na verdade, uma cultura que eu adoro. Tocando em voz e violão já fiz especiais do Joy Division, do Bauhaus, do Jesus and Mary Chain, e eu sempre traduzi as letras até mesmo antes de eu ter computador em casa. Rolava muito da galera falar quando eu era adolescente: “não gosto de música em inglês: e se o vocalista estiver me xingando?”. Então eu falava: “é só usar a porra de um dicionário inglês-português, ué!!!!” (hahahaha). Na verdade eu dividi um livro em dois, e o “Davidusakikaus” é a primeira parte. A segunda vem no fim do ano, já está praticamente pronta, pra qual eu deixei os sonetos e alguns poemas com uma estética mais concretista. Chama-se “Sonetos e outras fantasias estéticas”. E no ano que vem lanço o livro “O Calabouço de Valéria Dusaki”, que é prosa misturada com poesia. Todos os livros lançados pela Editora Reflexos. Visitem nosso Instagram: @editorareflexos.

Fellipe CDC:

03) Incúria, a sua primeira banda, não deixou nada registrado, mas eu queria saber um pouco das suas lembranças e o que você pensava e almejava quando decidiu fundar ou entrar nessa jornada.

Davi Kaus:

O Incúria foi formado em 1997/1998 e da formação fazia parte o Renan Botelho, hoje baixista da Blazing Dog. Era uma banda formada por amigos de ensino médio que tinham começado a curtir rock, com influências difusas, como é de se esperar de adolescentes. Pra escolher o nome da banda foi a coisa mais macabra e original do mundo: pegamos um dicionário bem grosso e abrimos na página 666. Apontamos o dedo e deu nessa palavra que quer dizer desleixado. Devia ser o capeta que queria que a gente virasse hippie, eu acho. (hahahaha). Eu no vocal e guitarra tinha começado a curtir Legião, o Renan no baixo a curtir Iron Maiden, o Diego no teclado/bateria de teclado curtia Deep Purple e o Leandro, no baixo, curtia rock mas em casa com os pais professores tinha influência de MPB. A amálgama era Raimundos, hehehe...

Ensaiávamos na QND. Eu queria formar uma banda de rock pra me expressar mesmo. Teve uma vez que, na 8ª série (hoje 9º ano), criei coragem e toquei violão num banco de concreto em frente a um bloco de salas de aula na Católica, onde estudei. Aí um casal sentou do lado e ficaram namorando e me escutando. Nossa, fiquei tão feliz! Era só um moleque de óculos e cheio de espinha tocando “Tempo Perdido” e eles se aproximaram, escutaram, namoraram e foram embora. Nem sabem eles o quanto eles mudaram o rumo

da minha vida.

Fellipe CDC:

04) Depois da Incúria você tomou gosto por essa loucura de ter banda de rock, tanto que entrou e/ou fundou outras tantas. O que mais te aborrece em uma banda ao ponto de deixá-la e iniciar um novo projeto?

Davi Kaus:

O meu grande problema sempre foi fazer parte de muitas bandas ao mesmo tempo. Teve época de eu estar em 5 bandas ao mesmo tempo, uma loucura. Claro que sempre uma estava mais ativa que outra, mas e quando TODAS resolviam empolgar? Já quase enlouqueci algumas vezes, hehehe... Acho que na dinâmica dentro de uma banda o que me deixa chateado é a falta de sintonia entre os integrantes: quando um está empolgado mas o outro está desanimado. E na maioria das vezes não é por mal, já toquei com muitas pessoas que têm outro emprego, eu vivo só na música. Aí a pessoa sai do emprego, a grana mia e obviamente há o desânimo. Aí quando você toca com quem vive apenas de música, tem a questão da grana, aí acabamos partindo apenas pro cover, o que eu particularmente adoro tocar, mas sinto necessidade de fazer minhas músicas. Compor é um processo cognitivo que engrandece a mente de quem o faz.

Quem só faz cover geralmente estagna como músico, não exercita tanto a cognição quanto quem compõe. Sem contar que quando compomos uma música que achamos

massa o prazer é lindo.

Fellipe CDC:

05) DF 76, The Cretines, Dinho Araguaia e Duodemo. Qual delas você destacaria e por quais motivos?

Davi Kaus:

Acho que a Duodemo. O Victor Rocky (batera, vocal e compositor) é um baterista foda e tenho uma sintonia com ele pra compor que é muito legal.


Fellipe CDC:

06) Davi, conta a história sobre os CDs da Psicotrópico que foram arremessados pela cidade. Aproveite e comente um pouco sobre esta banda e sobre este material lançado.

Davi Kaus:

Véi... (hahahahaa). Era uma banda muito boa na verdade, só que fomos patrocinados por um casal de comerciantes que tinha uma loja de artigos esotéricos na Rodoviária. E eles tinham umas letras pra gente musicar. Musicamos, botamos as nossas no meio e em troca de nós trabalharmos as letras deles, eles bancaram a gravação do CD, prensagem, sessão de fotos, lançamento do CD no Sesc da 913 Sul. Eu gostava de uma letra, mas tinha uma que falava que a teoria da evolução do macaco pro homem era lixo e talz... (hahahaha), bixo, era uma coisa estranha... Mas brigamos com eles, nós fomos imaturos também. Aí pra não nos darem os CDs eles jogaram as prensagens por toda a cidade... (hahahahaaa). O Rick (na época dono de uma locadora em Taguatinga Sul, ex-dono do bar Fim da Linha e hoje dono do GoodFellas Cinebar), me falou que tinha visto meu rosto num CD pela cidade. Só que infelizmente não foi num CD sendo vendido numa loja, foi no lixo mesmo… (hahahahaha).

Fellipe CDC:

07) Acho muito legal quando um artista consegue viver da própria arte e, sinceramente, pensei que você conseguiria isso com a Vitrine. Particularmente não curtia o nome, mas as músicas e as letras eram muito boas. Torci muito por vocês. Conte um pouco sobre a Vitrine, o CD, os clipes, os shows e quais fatores motivaram o fim.

Davi Kaus:

O Vitrine foi a banda mais profissional de autoral que eu toquei até hoje. O Israel Veloso (vocalista/guitarra/compositor) é um ser iluminado, super inteligente, talentoso e generoso e apostou no nosso sonho até o talo. Aprendi muito gravando com o Philippe Seabra da Plebe Rude (o estúdio dele já era foda e aprendi muito sobre

estrutura de composição na pré-produção). Os clipes são super profissionais também. Uma série de fatores motivaram o fim: o Mark Santana (baixista) teve a Belinha, sua filha; o Anderson (batera) estava ralando feito doido no trampo; eu comecei a tocar na noite com a Davi Kaus e os Irmãos Metralha; aí o Israel desanimou também. Mas tocamos num monte de lugares, tocamos em Cuiabá, em Goiânia, em Belo Horizonte, Anápolis, São Tomé das Letras, lançamos o CD em quatro lugares diferentes num fim de semana, tocamos com o Escola de Escândalo no bar Cult 22... Foi foda. Os shows eram muito bons, o Anderson na batera e o Mark no baixo era a cozinha perfeita pras

influências oitentistas da Vitrine. Mas uma coisa que desanimou também foi a seletiva do Porão do Rock que não fomos selecionados, tivemos problemas com a Pisces Records também... Mas foi um processo mais amplo. Mas o álbum “Espelho”, que lançamos, é um álbum realmente foda. E hoje o Israel está com o Israel e os Rayabutes, muito bom.


Fellipe CDC:

08) Vou aumentar a dose de sacanagem agora. Leda, Deluxe Jazz Fuckers, Davi Kaus e os Irmãos Metralha, Davi Kaus e os Malditos Hippies, This Fusion, Beerhead ou Dois. Escolha uma banda deste vasto universo vivido e comente sobre ela.

Davi Kaus:

Sacaneou legal hein... (hahahaaa). Eu tenho um carinho muito grande pelo Leda, banda na qual toquei com Maurício Kozak. A Davi Kaus e os Irmãos Metralha, com o Luís De Vita e o Tiago Araújo, porra, eu tinha orgasmos múltiplos tocando nossos Rocks, era uma energia muito foda, apesar das discussões, hehehe... No Beerhead Ramones Tribute eu me sentia um privilegiado em tocar com três caras extremamente lindos underground: Rafael Vilela, Washington Maciel e o mestre Marcelo Podrera. Com o Beerhead eu toquei nos meus maiores shows, que foram no Moto Capital e numa festa particular em João Pinheiro. Neste tocamos depois de uma banda cover do Coldplay. A banda super profissa... Mas pensei: “depois de Coldplay, Ramones? A galera vai infartar...” (hahaha). Depois do show foi é fila pra fotos, ficamos num hotel fodão, foi rockstar tipo Guns and Roses ó... (hahaha).

Fellipe CDC:

09) E sobre a banda Duna, o que pode nos dizer, revelar, adiantar...

Davi Kaus:

A Duna é uma banda formada pelo Maurício Kozak (que além de meu Irmão de alma é apresentador do programa Carbono 14 ShoegazerLab na zoommusic.com), a super baterista Karla Machado e a música em pessoa Dênia Silva, baixista. É uma banda de Shoegaze-guitar-noise. Eu já era fã, toco com o Mau há tempos e ele é um cara que eu admiro muito pelo seu conhecimento musical e seu estilo de tocar guitarra instintivo e baseado em texturas sonoras conseguidas através dos pedais de efeito que ele cultiva.


A Dênia e a Karla são duas mulheres que sou muito grato por ter conhecido, tanto musicalmente quanto espiritualmente. E eu gosto muito do Pollyanna is Dead, banda da qual elas fizeram parte. As bandas que eu tive com o Mau (The Cretines, Leda e This Fusion) foram muito boas, mas devidos a aspectos como trampo e álcool (hahaha) acabaram não desenvolvendo todo o potencial que deveriam. Acho que agora estamos maduros o bastante pra fazermos algo realmente consistente. E junto com essas duas musicistas e mulheres tão inspiradoras temos a faca e a Música na mão, né...


Fellipe CDC:

10) Os Cachorros das Cachorras é uma das bandas clássicas de Taguatinga. Quero saber como surgiu o convite para participar do elenco, como está sendo o convívio com os outros ‘cachorros’ e quais serão os próximos uivos e latidos?


Davi Kaus:

Eu fico falando que admiro as pessoas e eu admiro mesmo, viu? Não é papo de entrevista não. (hahaha) O Gérson Deveras exala música e poesia. É um Gênio de Taguá na minha opinião. E eu já era fã dos Cachorros e em especial do Gérson das antigas. Meu sonho era tocar no palco do Blues Pub da Lázia embaixo do Kingstown Hotel, e a primeira vez que eu toquei lá foi graças ao Gersinho, com a DF76 sendo banda de apoio dele. Eu sinto que ele me considera um bom músico e isso me orgulha muito, um artista tão inteligente e que eu admiro. Entrei no lugar do Thoronto, que volta e meia toca com a gente. O Thoronto é um monstro na guitarra. Quando eu toco com ele fico babando. Devemos fazer uma live em outubro. Esperem e verão, hehehe... Ou inverno!

Fellipe CDC:

11) Sobre a sua carreira solo, fale do Ep “Entre a diversão e a última microfonia” (nota do entrevistador: belo título!), do clipe para a música “Just stay alive” e das pretensões com essa carreira de lobo solitário.

Davi Kaus:

Vou lançar mais um álbum cheio e fazer um show de voz e violão com as músicas. Tocando voz e violão nas noites de Taguá, peguei uma manhã (modéstia à parte) de transcrever músicas de bandas com baixo, guitarra, batera e voz pra voz e violão de maneira que as músicas não fiquem com buracos, xoxas, sabe? Tipo tocar “Ace of Spades” do Motörhead com acorde aberto, usando oitavas no meu violão Folk que tem um gravão bom. Então vou usar essa experiência pras minhas músicas. Acho que vai ficar bom. O clipe foi bem em clima de quarentena, em casa, na doida mesmo, fazer e lançar: “um celular na mão e uma idéia na cabeça”, hehehe... Tem uma música nesse EP que é um folk chamado “Entre Marx e Malafaia”, que é uma música muito legal, apesar do Malafaia. É um EP puxado pro alternativo, meio folk-rock, influências de Sonic Youth, Neil Young, Jesus and Mary Chain. Já o próximo vai ser mais ou menos no formato do “Rust never sleeps” do Neil Young, com a fronteira do Folk e do Rock bem definida mesmo. 4 músicas rockonas e 4 folks.

Fellipe CDC:

12) Gosto do seu lado zineiro. Pretende ressuscitar os impressos Liberte a ação, Antropogástrico ou FODA Pública algum dia? Será que os fanzines o impulsionaram de alguma forma a escrever um livro? Já que ralamos no assunto, dentro da FODA, qual era a sua função além de fanzineiro? E quando teremos o privilégio de ter a FODA Pública outra vez invadindo e abrilhantando as ruas do DF?

Davi Kaus:

O Liberte a Ação foi um zine mais experimental. Sobre o Zine Antropogástrico (que foi resenhado pelo Brasília Fina Flor do Rock. Que orgulho!) tenho muita vontade de voltar, mas depende da Milla e do Higor. Era um zine tão legal... Tenho muita saudade dos poemas da Milla. Nossa, escreve demais. Com certeza foi uma influência pra escrever um livro! Atitude total, tipo “foda-se se não é um livro impresso bonitinho, o lance é espalhar a mensagem!”. Eu estava revisitando os zines que guardo com todo carinho aqui, até postei umas fotos no Instagram. Tem um soneto no próximo livro que saiu no Antropogástrico, “Rostos sem gargantas”. O do F.O.D.A, bem, se o F.O.D.A voltar algum dia, será foda um zine do F.O.D.A né? Trocaralho do cadilho! (hahaha). Ah, eu era orêia, carregando caixa, operador de som, divulgava muito no Face. Era o orêia mais feliz do mundo. E precisamos voltar, nesse caos que está o Brasil do biroliro é imperioso. Mas estamos todos dispersos, cada um pro seu lado… Tínhamos que voltar pelo festival e pela saudade.


Fellipe CDC:

13) Preciso encerrar com 13 perguntas. 13 porque é uma das formas que encontro para pensar estar incomodando o atual presidente (com letra minúscula mesmo!). Obrigado por responder essas perguntas e vida longa a essa sua vitalidade artística. Algo que queira acrescentar antes de despedir-se dos leitores do Escola de Rock?

Davi Kaus:

Sobre o biroliro, nem vou falar nada, tô muito feliz pra estragar esse prazer que estou sentindo. Fellipe, me sinto lisonjeado por você ter me convidado pra essa entrevista. É muito bom ser escutado, uma coisa que o povo não tem muito no dia-a-dia. Temos que reaprender a dialogar urgentemente. O povo é asfixiado por essa rotina maldita e isso é tão triste porque tem pessoas tão bonitas com sabedoria pra dar e vender mas muitos não dão a merecida importância. Então, muito grato! E viva à Arte, à Música e ao R.O.C.K. Um lindo abraço a todxs!

Site: ESCOLA DE ROCK

Coluna: PROSA MUSICAL

Entrevistado: Davi Kaus

Entrevistador: Fellipe CDC


 
 
 

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